Quando desliguei
Uma vez eu desmaiei. Não houve luz, não houve lembranças passando diante dos meus olhos, não houve qualquer experiência mística. Foi simples. Como desligar uma televisão no meio do ruído. Um segundo antes havia imagem, som, tensão. No instante seguinte, nada.
E naquele nada não existia dor. Não existia pensamento. Não existia o peso constante de ser alguém. Por um minuto, ou talvez menos, eu simplesmente não fui. Não estava. Não sentia. E o mais perturbador é que aquilo era profundamente pacífico.
Se morrer for assim, talvez seja apenas isso, um desligar silencioso.
Eu não teria achado ruim não ter voltado. Essa é a parte que me assusta admitir. Porque não se trata exatamente de querer morrer, mas de reconhecer que a ausência de tudo parecia descanso. Um descanso que não exige esforço, que não pede resistência, que não cobra lucidez.
Não é minha culpa precisar desse coquetel de comprimidos para continuar funcionando. Eles me mantêm de pé, regulam o que em mim desregula, seguram o que ameaça cair. Sem eles, talvez eu morra. É quase irônico depender de algo para sobreviver quando, em certos momentos, a ideia de desaparecer parece tão serena.
O intrigante é essa pergunta que não se resolve. Eu quero morrer, ou eu só quero que a dor desligue? Quero o fim da vida, ou o fim do cansaço de existir?
Porque são coisas diferentes. E eu ainda estou aqui, tomando os comprimidos, respirando, escrevendo sobre o minuto em que não existi.

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